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Das Cinzas da Censura à Coroação Global: A Incrível e Resiliente História do Manhwa
Hoje, vamos mergulhar fundo em uma história que vai muito além de simples “quadrinhos coreanos”. A história do manhwa não é uma linha reta de sucesso; é uma saga épica de sobrevivência, repressão, crise e, finalmente, uma reinvenção tão genial que mudou a forma como o mundo inteiro consome histórias visuais. É a crônica de uma arte que foi silenciada, quase aniquilada, e que ressurgiu das cinzas digitais para conquistar o planeta.
Prepare-se, porque esta não é apenas uma aula de história. É um estudo de caso sobre como a criatividade floresce sob pressão e como a tecnologia pode libertar uma geração inteira de artistas.
As Primeiras Vinhetas: Sátira e Ocupação

Nossa jornada começa no início do século XX. O primeiro manhwa, inserido no jornal Daehan Minbo em 1909 por Lee Do-yeong, não era uma fantasia épica. Era uma arma. Uma charge satírica que usava a arte para criticar a crescente opressão do governo colonial japonês. Desde seu nascimento, o manhwa já carregava um DNA de resistência.
Após a Segunda Guerra Mundial e a libertação da Coreia, o manhwa explodiu em popularidade, tornando-se o principal entretenimento de uma nação em reconstrução. Surgiram as manhwabangs, as “salas de manhwa”, onde as pessoas podiam alugar e ler as últimas edições por uma pequena taxa. Era um ecossistema vibrante e popular, mas que logo encontraria um inimigo poderoso: o próprio governo coreano.
A Idade das Trevas: Como a Censura Moldou os Gêneros de Manhwa
Aqui, a história do manhwa toma um rumo sombrio e, honestamente, fascinante. Durante as ditaduras militares que governaram a Coreia do Sul por décadas (especialmente sob o regime de Park Chung-hee, 1961-1979), a arte foi vista como uma ameaça. Em 1967, foi criada a “Comissão de Ética e Moral para Publicações”, um nome burocrático para um órgão de censura brutal.
Artistas eram presos, obras eram queimadas e um sistema de pré-censura exigia que todo manhwa fosse aprovado antes da publicação. A criatividade foi colocada em uma camisa de força. E, como nerd que sou, é aqui que a análise fica interessante. A censura não matou o manhwa; ela o forçou a se transformar de maneiras inesperadas.

- O florescer do Sunjeong (순정만화): Gêneros que focavam em romance e drama familiar (sunjeong, o equivalente ao shoujo japonês) eram vistos como menos “perigosos” pelo regime. Isso permitiu que muitas artistas mulheres encontrassem um espaço para publicar, desenvolvendo narrativas complexas sobre emoções e relacionamentos. Obras como Full House de Won Soo-yeon se tornaram fenômenos, provando que havia um mercado gigantesco para histórias que o governo considerava “inofensivas”.
- A Ascensão dos Heróis Patrióticos: Por outro lado, o governo incentivava ativamente manhwas de ação que glorificavam o exército e o nacionalismo. Obras de ficção científica e fantasia eram frequentemente alteradas para incluir mensagens anticomunistas. A arte estava sendo usada como ferramenta de propaganda.
Essa pressão criou um mercado polarizado, mas também ensinou os criadores a usar metáforas e subtextos para contar suas histórias, uma habilidade que se provaria vital no futuro.
A Crise dos Anos 90: Um Colapso em Duas Frentes

Com a democratização da Coreia do Sul no final dos anos 80, a censura direta diminuiu, mas um novo desastre se aproximava. A década de 90 foi devastadora para a indústria de manhwa, e aqui, como analista, não posso deixar de traçar um paralelo com a crise que atingiu os quadrinhos americanos na mesma época.
- A Crise Americana: Nos EUA, a crise foi causada por uma bolha especulativa. Os colecionadores compravam múltiplos exemplares de HQs com capas variantes, acreditando que se tornariam valiosos. Quando a bolha estourou, o mercado foi inundado com material sem valor, levando ao fechamento de milhares de lojas. Foi uma crise de excesso e especulação interna.
- A Crise Coreana: Na Coreia, a crise foi multifatorial e externa. Primeiro, a chegada massiva e, muitas vezes, ilegal de mangás japoneses, que eram novos e empolgantes, sufocou o mercado local. Segundo, a Crise Financeira Asiática de 1997 dizimou o poder de compra da população e levou muitas editoras à falência. Por fim, uma nova lei de “proteção juvenil” em 1997 foi, na prática, uma nova forma de censura, rotulando muitos manhwas como “prejudiciais” e dificultando sua distribuição.
O resultado foi o mesmo: o colapso. As manhwabangs fecharam em massa. As editoras faliram. Parecia o fim. A história do manhwa estava prestes a se tornar uma nota de rodapé.
A Revolução Digital: O Nascimento dos Webtoons

Mas, como em toda boa história, é no ponto mais baixo que a virada acontece. No início dos anos 2000, a Coreia do Sul estava investindo pesadamente em infraestrutura de internet de alta velocidade. Enquanto a indústria impressa morria, uma nova fronteira se abria.
Plataformas como Daum (hoje Kakao) e Naver viram uma oportunidade. Em 2003 e 2004, lançaram seus portais de “webtoons”. A ideia era revolucionária por vários motivos:
- Formato Inovador: Em vez de replicar a página de um livro, os artistas criaram um formato de rolagem vertical infinita, perfeitamente adaptado para leitura em telas de computador e, mais tarde, de smartphones.
- Acessibilidade Total: Eram gratuitos. Isso eliminou a barreira financeira e combateu a pirataria de frente. O modelo de negócios viria depois, com publicidade, fast pass (pague para ler capítulos adiantados) e licenciamento.
- Liberdade Criativa: A censura governamental e a autocensura das editoras tradicionais desapareceram. Artistas podiam explorar qualquer gênero, do terror mais visceral (como em Sweet Home) ao romance mais delicado (True Beauty), sem pedir permissão.
Essa foi a Fênix renascendo das cinzas. A geração de artistas que cresceu frustrada pela crise dos anos 90 agora tinha uma plataforma global para mostrar seu talento. O webtoon não foi apenas uma adaptação tecnológica; foi uma resposta direta e triunfante a décadas de repressão e crise econômica.
A Conquista Global: O Manhwa no Século XXI

Hoje, plataformas como Webtoon e Tapas têm centenas de milhões de leitores mensais em todo o mundo. O manhwa, em seu formato de webtoon, tornou-se um dos maiores produtos de exportação cultural da Coreia, rivalizando com o K-Pop e os K-Dramas.
Obras como Solo Leveling, Tower of God e The God of High School não apenas ganharam adaptações de anime de sucesso, como também estão influenciando a indústria de animação japonesa. É uma virada de mesa espetacular: a cultura que uma vez quase sufocou o manhwa agora o adapta e o celebra.
A história do manhwa é, em última análise, uma lição de resiliência. É a prova de que uma forma de arte pode ser empurrada para a beira da extinção, mas se tiver talento, paixão e a ferramenta certa na hora certa, ela pode não apenas sobreviver, mas redefinir todo o seu meio. E, como fã, é impossível não se inspirar por essa jornada.
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Guia Nerd da História do Manhwa: Suas Dúvidas Resolvidas
Qual a principal diferença entre manhwa, mangá e manhua?
Pensa assim: é uma questão de geografia e direção de leitura! Manhwa (만화) é coreano e, especialmente nos webtoons, é lido de cima para baixo. Mangá (漫画) é japonês e se lê da direita para a esquerda. Já o Manhua (漫画) é chinês e, tradicionalmente, também era lido da direita para a esquerda, mas hoje em dia, com os webcomics, a leitura de cima para baixo também é super comum. A pronúncia é parecida, mas a origem e o estilo são únicos!
O manhwa sempre foi colorido como os webtoons?
De jeito nenhum! Essa é uma das maiores mudanças da era digital. O manhwa impresso tradicional, assim como o mangá, era majoritariamente em preto e branco para cortar custos de impressão. A transição para os webtoons, onde o custo de “tinta digital” é zero, permitiu que os artistas explorassem paletas de cores vibrantes, o que se tornou uma das marcas registradas do formato.
A censura ainda é um problema para os criadores de manhwa hoje?
Felizmente, a situação melhorou drasticamente. A censura estatal direta como a que existia na ditadura é coisa do passado. Hoje, a “censura” é mais uma moderação da plataforma, parecida com o que vemos no YouTube ou Instagram. As plataformas têm suas próprias diretrizes sobre conteúdo adulto ou sensível, mas a liberdade criativa para explorar temas complexos e polêmicos é infinitamente maior do que era.
Por que tantos manhwas viram K-Dramas?

É a combinação perfeita! Os manhwas, especialmente os de romance e drama, já vêm com uma base de fãs gigantesca, um roteiro testado e aprovado, e um storyboard visual completo. Para as produtoras de TV, adaptar um webtoon de sucesso é um investimento muito mais seguro do que começar um roteiro do zero. É uma sinergia que alimenta as duas indústrias, como vimos com True Beauty, Itaewon Class e tantas outras.
Posso começar a ler manhwa sem conhecer nada da cultura coreana?
Pode não, DEVE! Essa é a beleza da coisa. Claro que, se você já entende um pouco da cultura (hierarquias sociais, culinária, etc.), vai pegar algumas nuances extras. Mas as histórias são universais! Amor, traição, superação, aventura… são temas que qualquer um pode curtir. O manhwa é uma porta de entrada fantástica para a cultura coreana, não uma prova final.
Referências e Fontes:
- Korea Herald: History of Korean Comics (Manhwa), Acesso em 18 de agosto de 2025.
- Google Arts & Culture (Korean Cultural Centre India): The History and Appeal of Manhwa, Acesso em 18 de agosto de 2025.
- Webtoon Entertainment (Corporate Website): Our Story, Acesso em 18 de agosto de 2025.
- Silverman, D. (2014). A History of Comic Book Crises, Artigo de análise sobre a crise dos quadrinhos americanos. Acesso em 18 de agosto de 2025.
- Izneo Publisher Blog: Manhwa: A History of the Korean Comic Book, Acesso em 18 de agosto de 2025.
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